Lucas Nobile – O Estado de S.Paulo

Considerado por muitos como um dos discos mais importantes da música popular brasileira, Acabou Chorare, dos Novos Baianos – que chega amanhã às bancas em relançamento pela Grande Discoteca Brasileira Estadão -, esteve perto de ser um dos grandes fiascos da história.

Em 1972, três anos depois de seu disco de estreia, Ferro na Boneca, o grupo baiano já havia deixado sua terra natal para se instalar em um apartamento em Botafogo, no Rio. Em solo carioca, por precipitação – e falta de tato -, quase viram aquele que se tornaria seu álbum antológico ser arruinado. Por sugestão de Nelson Motta, eles gravaram todas as faixas de Acabou Chorare, na casa de Jorge Karan, apenas em dois canais, com poucos instrumentos, de maneira rasteira. A gravadora queria lançar o disco mesmo assim, mas Os Novos Baianos bateram o pé. “Nós não gostamos do resultado, não aceitamos que fosse lançado daquele jeito e rompemos com a Polygram. Aquilo ia estragar o disco. Aí, o pai do Cazuza (João Araújo), que era dono e diretor da Som Livre, nos ofereceu a produção digna que o álbum merecia”, conta Luiz Galvão.

O encarregado da tarefa foi Eustáquio Sena, figura importante para viabilizar toda a loucura inventiva proposta pelo grupo na realização do LP, extremamente moderno até hoje. Atualmente, bandas tentam imitar, mas não passam nem perto da criatividade e da pegada de Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Jorginho Gomes, Dadi Carvalho, Baixinho e Bolacha.

O toque de João. Com arranjos de Pepeu Gomes e Moraes Moreira, e os temas assinados por Galvão (todos em parceria com Moreira, além de Paulinho Boca de Cantor, em Swing em Campo Grande, e Pepeu, em Besta É Tu), com exceção à faixa que abre o disco, Brasil Pandeiro (de Assis Valente), Acabou Chorare tinha tudo para seguir a mesma linha de Ferro na Boneca. “Nós vimos o tropicalismo de Gil e Caetano e acreditamos que era possível criar algo novo”, diz Galvão.

A novidade citada foi composta por ele e por Moreira a toque de caixa. Eram temas como Tinindo Trincando, Besta É Tu, Bilhete pra Didi, A Menina Dança e Mistério do Planeta.

Além da onda tropicalista, a grande influência foi exercida por João Gilberto. “Em 1972, ele havia chegado dos Estados Unidos e eu levei Baby, Moraes e Paulinho para conhecerem o João. Ele deu dicas de respiração e disse que a gente precisava voltar para o caminho de casa”, lembra Galvão, referindo-se ao conselho para que fizessem um disco menos roqueiro do que Ferro na Boneca e mais brasileiro.

O título da música, que também batiza o LP, carrega a famosa história contada por João após o fim do berreiro de sua filha Bebel Gilberto. O que pouca gente sabe é a origem do tema. “Eu estava com nosso agente e uma abelha sentou na minha mão. À noite, outra abelha pousou novamente em mim e eu disse: “essa abelha já esteve comigo hoje”. Todo mundo pensou que eu estava louco. Liguei para o João. Contei a ele, que também estava falando sobre abelhas com o Capinan. Eu disse: “ela faz mel”. Ele respondeu: “e zum-zum”. Pedi permissão e incluí na música”, conta Galvão sobre a inspiração viajante.

OS NOVOS BAIANOS
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Fonte: Começou Chorare | Os novos baianos Blog