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RAUL AMARO NIN FERREIRA

ACERVO PESSOAL

Relatório entregue à Comissão Nacional da Verdade produzido pela família Nin Ferreira e o Armazém Memória.

baixe o relatório em pdf

O livro que se oferece à nossa leitura guarda em suas páginas uma história de horrores, mas que é sobretudo de heroísmo e de solidariedade que ele nos fala.

É o protagonista dessa história triste, Raul Amaro Nin Ferreira, quem utilizou a palavra horror para caracterizar o que viveu quando foi preso, interrogado, torturado e morto em mãos de agentes do Estado, em agosto de 1971, quando o arbítrio e os abusos de poder dominavam a cena política brasileira. Suas últimas palavras que conhecemos foram ditas a um enfermeiro do Hospital Central do Exército, onde foi assassinado: “Tire-me desse horror, Pedro”.

Raul tinha 27 anos, era o mais velho de nove irmãos, formara-se em Engenharia Mecânica pela PUC-Rio, estava noivo e acabava de ganhar uma bolsa de estudos para a Holanda quando foi detido e conheceu os círculos infernais dos porões da ditadura.

Foram muitos os brasileiros submetidos aos mesmos horrores que mataram Raul. Muitos jovens tiveram esse mesmo destino. Em sua história e na memória do que viveu, estão os ecos de muitas outras vidas. Os horrores que roubaram a vida e os sonhos de Raul atingiram em cheio sua família e seus amigos. Seus pais percorreram todos os caminhos do absurdo para recuperar o corpo do filho morto. Seus 8 irmãos e sua noiva tiveram as vidas avassaladas pela dor. E nenhum dos amigos foi o mesmo depois de sua morte.

No entanto, é de heroísmo e de solidariedade que esse livro trata. Raul foi assassinado por ser solidário e enfrentou a tortura e a morte com dignidade e heroísmo. Seus pais tiveram a essas nesnas atitudes diante da perda do filho. D. Mariana, sua mãe, soube passar por cima da própria dor para contruir uma rede de solidariedades.

A herança de Raul, recolhida por seus pais, por seus irmãos, sobrinhos e por todos aqueles que o amavam é uma herança de heroísmo e de solidariedade. A PUC-Rio se orgulha de tê-lo ente seus ex-alunos.

DEPOIMENTOS

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade do Rio de Janeiro realizaram no Rio sessão pública para colher os depoimentos e sugestões de recomendações da família de Raul Amaro Nin Ferreira, morto em 12 de agosto de 1971 no Hospital Central do Exército, após ser torturado no Doi do Rio e também no hospital.

O pesquisador Marcelo Zelic, do Armazém Memória, e Felipe Carvalho Nin Ferreira, sobrinho da vítima, prestaram depoimento.

O irmão da vítima, Pedro Nin Ferreira, afirmou que a maior contribuição que sua família pôde dar à CNV e ao Brasil foi provar que um hospital integrou o aparato da repressão do Estado brasileiro. “As pessoas sabem do Doi-Codi. Agora vão saber também que um hospital fez parte do sistema de repressão”, afirmou Pedro.

O médico Luiz Tenório relata sua atividade como médico e militante. Cassado pelo AI-5, Tenório auxiliou pessoas feridas em ações de combate à ditadura. Por tais feitos, Tenório foi sequestrado pelos militares em seu consultório, em 1972, e levado ao Doi-Codi do Rio de Janeiro, onde foi torturado e teve o tímpano perfurado. Ele denuncia que seu colega de profissão e ex-colega de faculdade, Ricardo Agnese Fayad, médico do Exército, avaliou que ele deveria continuar sob tortura.

Data: 22/09/2014.

“Raul Amaro Nin Ferreira era engenheiro mecânico de formação e trabalhava no Ministèrio da Indústria e Comércio quando foi preso, em 1º de agosto de 1971, por agentes do DOPS. Morreu poucos dis depois, em 12 de agosto, aos 27 anos, no Hospital Central do Exército (HCE), depois de ter sido torturado no DOI-CODI do I Exército e também no HCE – um complexo hospitalar militar localizado na rua São Francisco Manoel, nº 126, no bairro de Benfica, no Rio de Janeiro”.

Comissão Nacional da Verdade

Relatório Final, página 738.

Comissão Nacional da Verdade: audiência sobre o caso Raul Amaro Nin Ferreira, realizada no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro em 22/09/2014.

DOCUMENTOS

 

Leia a relação de material apreendido à Rua Santa Cristina nº 96

Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade

“Diante das investigações realizadas, conclui-se que Raul Amaro Nin Ferreira foi preso, torturado e morto por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar, implantada no país a partir de abril de 1964.

Recomenda-se a retificação da certidão de óbito de Raul Amaro Nin Ferreira, assim como a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso, para a identificação e responsabilização dos agentes envolvidos em sua prisão, tortura e morte. Recomenda-se , por fim, a entrega aos familiares do prontuário de Raul Amaro Nin Ferreira no Hospital Central do Exército (HCE)”

Comissão Nacional da Verdade

Conclusões e Recomendações, Relatório Final, página 682.

Identificação da autoria dos envolvidos no sequestro e assassinato sob tortura no DOI-CODI e HCE de Raul Amaro Nin Ferreira, reconhecidos pela CNV.

Lista completa de agentes do estado envolvidos no assassinato de Raul Amaro Nin Ferreira identificados no relatório produzido pela família.

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“Quando soubemos que o Raul tinha ido para o hospital, pensávamos que ele tinha apanhado, mas que iriam cuidar dele, jamais o contrário […] As pessoas sabem que houve [graves violações de direitos humanos] no DOI-CODI. Agora vão saber que um hospital fez parte do sistema de repressão”.

Felipe Carvalho Nin Ferreira

Sobrinho de Raul Amaro, em Comissão Nacional da Verdade - Relatório Final, página 739.

“Com a leitura e análise dos documentos levantados, pudemos ter uma ideia mais clara do que aconteceu com Raul Amaro nos dias em que esteve preso no DOPS-GB, no DOI-CODI do I Exército e no Hospital Central do Exército. Por eles é possível também acompanhar a construção da farsa oficial, produzida pelos órgãos de repressão do estado e reproduzida pela imprensa, bem como levantar quais foram os agentes do estado que tiveram participação na sua prisão e morte. Por fim, para fechar o trabalho, tecemos considerações sobre o processo de luta pela verdade e o que entendemos por justiça, no que diz respeito à violência estatal contra os inimigos do estado.”.

Raul Carvalho Nin Ferreira

Sobrinho de Raul Amaro, em Relatório Raul Amaro Nin Ferreira, página 12.

“A elucidação do contexto e envolvidos no assassinato de Raul Amaro, desmonta a versão de que o porão agia à revelia do comando e suscita questões sobre os fatos graves que temos acompanhado hoje, praticados na área de segurança pública. Quem tem dado a ordem para que agentes de segurança pública dos vários níveis da estrutura do estado brasileiro ajam assim hoje? Quais estruturas continuam atuando na sociedade com conceitos e práticas de terrorismo de estado? O que tem sido feito para que os mecanismos criados, como o de combate à tortura, saiam do papel, visando a erradicação dessas barbáries? Por que não avançamos na consolidação do respeito aos direitos humanos no Brasil?”.

Marcelo Zelic

Coordenador do Armazém Memória, em Relatório Raul Amaro Nin Ferreira, página 19.

Realização

Contato: marcelozelic@gmail.com