ALCEU VALENÇA

(Discografia 1972-2016)

 Acervo online

VIVO! REVIVO!

“Salve a democracia, que voltará qualquer dia, é com poder popular… … tipo poder popular… … tipo poder popular, mamãe… … ” (Alceu Valença)

Tudo Geopolítica

Geopolítica é a congruência entre demasiados grupos de estratégias adotadas pelo estado para administrar seu território, e anexar a geografia cotidiana com a história. Desta forma, Geopolítica é um campo de conhecimento multidisciplinar, que não se identifica com uma única disciplina, mas se utiliza principalmente da Teoria Política e da Geologia e Geografia ligado às Ciências Humanas e Ciências Sociais aplicadas. (Wikipédia)

MÚSICAS PARA TEMPOS BICUDOS

Comemorando seus 70 anos, Alceu Valença deu um salve à democracia, ofendida em tempos de Temer, protestando no show Vivo! Revivo!, na certeza que ela voltará “é com poder popular”. Cantou seu recado durante a embolada em Edipiana nº 1, marcando diferenças do passado, onde estar sozinho a reclamar, era dito aos berros à sua mãe em 1976 e 40 anos depois, Alceu se dirige a todos nós, apontando a necessidade do próximo ciclo de defesa da democracia, considerar o fortalecimento de um governo tipo poder popular. Mudam-se tons, mas a irreverência e o vigor permanecem.

CONFIRA NA LINHA DO TEMPO O SHOW VIVO! REVIVO! E OS ÁLBUNS DE ÉPOCA.

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Alceu Valença revive “Vivo!”. Meninos, eu vi em 1975!

por Silvio Osias do Jornal da Paraíba

O show que aparece no disco Vivo!, que Alceu Valença lançou em 1976, passou por João Pessoa um ano antes. Esse garoto cabeludo da foto, segurando um gravador jurássico, sou eu aos 16 anos, entrevistando Alceu no Teatro Santa Roza!

 

Vou Danado Pra Catende! 

O show era extraordinário! No palco, Alceu Valença acompanhado por Zé Ramalho e sua viola, Lula Cortes e seu tricórdio e a banda pernambucana Ave Sangria, que já fora Tamarineira Village. Podemos resumir assim: a tradição musical nordestina revisitada com sotaque roqueiro.

Alceu oferecia uma nova leitura do que os tropicalistas haviam feito um pouco antes. E Chico Science faria muito depois. Depois do festival Abertura, lançara o primeiro disco solo, Molhado de Suor. Em seguida, Vivo! traria parte do repertório do show Vou Danado Pra Catende. Espelho Cristalino completaria depois essa primeira fase do artista.

Quatro décadas se passaram, e Alceu Valença comemorou reencontrando o Vivo!. O show, gravado em 2015 no Teatro Santa Isabel, no Recife, está disponível em CD e DVD. Vivo! Revivo! traz todo o repertório do LP de 1976, além de faixas de Molhado de Suor e Espelho Cristalino. Não tem as limitações técnicas do original, mas também não tem a mesma garra. É o Alceu de ontem interpretado pelo Alceu de hoje. De todo modo, é muito bom de ouvir!

Alceu Valença, Geraldo Azevedo e a psicodelia do disco Quadrafônico – De como Rogério Duprat foi parar no disco de estreia da dupla pernambucana que revelou grandes compositores da música brasileira.

Os 3 primeiros discos de Alceu Valença fazem parte da coletânea Lindos Sonhos Delirantes (LSD) de Bento Araújo, onde 100 discos psicodélicos do Brasil, lançados entre 1968 a  1975 foram resenhados pelo autor. Confira acima os discos selecionados e veja o panorama musical do período.

SHOWS

 

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 FILMES

 

Alceu Valença

 Alceu Valença em Busca do Trem Universal

Fonte: Ele Ela 072 – Marisa Sommers – Abril de 1975, páginas 74, 75, 76 e 77 – 1975

Em 1975 Alceu Valença era considerado uma das grandes revelações da MPB, apesar de já gravar desde 1972 (seu primeiro disco, ao lado de Geraldo Azevedo), e de ter um disco solo lançado em 1974 (Molhado de Suor). Na verdade o grande impulso para torná-lo mais conhecido foi sua participação no Festival Abertura, da Rede Globo, quando sua composição “Vou Danado Pra Catende” foi um dos grandes destaques do festival. Naquele ano, a revista Ele Ela fez uma entrevista com Alceu, onde ele falou para o jornalista Luis Ricardo Leitão, numa matéria intitulada “Alceu Valença em busca do som universal”.

“Revelado no festival Abertura, com a música Vou Danado Pra Catende, ele apareceu no cenário prometendo colocar um pouco de molho no panorama sem sal da música brasileira atual. Embora sua música parta de raízes nordestinas, sua visão de mundo ultrapassa o regionalismo e parte em busca de uma cultura brasileira de sentido mais amplo. Como se pode ver nesta declaração: ‘Os sons do Nordeste foram uma base para permitir que eu cubra as distâncias para o Norte, Sul, Leste e Oeste. O que está aqui é o meu centro. O resto está no mundo.

Sobre ele, as opiniões divergem. Há quem o considere o mais talentoso dos compositores nordestinos que despontam agora para o Brasil inteiro. Outros o identificam como um excelente ator que, só acidentalmente, faz música e canta. E há ainda os que negam qualquer valor nele, defendendo com unhas e dentes a preservação e o culto das ‘raízes da música popular nordestina’. Contudo, se os conceitos se contrapõem, um só comportamento se estabelece: não se fica alheio à arte de Alceu Valença, pernambucano, 28 anos, ex-bacharel em Direito e ex-repórter, revelado nacionalmente à procura de um trem no Abertura, da TV Globo.

Seu avô, Orestes, tocava viola e de vez em quando reunia violeiros no terraço da casa-grande em São Bento do Una, interior de Pernambuco. O menino Alceu era ouvinte atento dos desafios, como também ‘curtia calado’ os aboios do vaqueiro Luís e o sistema de alto-falante do ‘Doutorzinho’, espalhando pela cidade um vasto repertório de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Além disso, havia os sons do campo, os passarinhos, o chiar do carro de boi. Com quatro anos fez seu primeiro show, no Cineteatro Rex, em São Bento do Una. Com 12, mudou-se para o Recife e descobriu o rock. Dez anos depois começou a ganhar os primeiros prêmios em festivais regionais. Hoje, com dois discos gravados e participação destacada em três outros, ele estranha o sucesso: ‘Às vezes, não é bom ser parado na rua por alguém desconhecido, que pergunta pelos seus planos. Ou ser tratado como um ‘artista’, um ente excêntrico, original, que as pessoas querem possuir e exibir como uma raridade’.

Ele Ela: Quando nasceu em você a necessidade de compor?

Alceu: A partir de 1966, com a fase áurea dos festivais, quase sem querer. Eu escrevi poemas, mas me achava incapaz de fazer música, até que um dia, contrariando os planos da família, que me queria advogado, comprei um violão. Não me recordo quando surgiu a primeira música. Sei que gostei, e daí em diante participei de festivais regionais, do Festival Universitário de São Paulo e do FIC de 1969. Mas era trabalho esporádico. E ainda havia o curso de Direito, de que um dia cansei e desvencilhei-me. Acho que estava no quarto ano, fazendo um estágio e me encarregaram de fazer uma cobrança judicial. Mas o camarada estava numa situação tão ruim que eu desisti do processo e abandonei de vez a carreira. Tentei por algum tempo o jornalismo, sem sucesso. Meu negócio era mesmo música, poesia. Os primeiros shows no Recife apressaram a decisão.

Ele Ela: Profissionalmente, como você começou?

Alceu: Em 1971, quando viajei para o Rio, cheio de planos. Ia sem contatos e pontos de apoio além de Geraldo Azevedo, compositor pernambucano que trabalhava comigo e resolveu dividir o desafio da cidade grande. Com ele gravei o disco Alceu Valença e Geraldo Azevedo, que não aconteceu, a gravadora só preocupada com bolerões. O Rio, com toda sua carga de neuroses, me transtornou. Num instante eu estava numa tremenda barra pesada, sem nenhuma condição de sobrevivência. Inesperadamente, foi desse caos que a minha música começou a criar relações com sons nordestinos, som de pífanos e bandas do interior. Sem eu querer procurar as raízes, elas surgiram aí, claras. E o meu trabalho, que era bastante lastreado no rock, passou a expressar uma série de sons da infância que vieram à tona, uma consequência da comparação inevitável da vida que eu levava no Rio com a de São Bento do Una.

Ele Ela: Assim, é certo pensar que se não fosse a viagem ao Rio a sua música demorasse ainda um pouco mais para assumir relações com sons nordestinos…

Alceu: Certo. Na verdade, cedo ou tarde essas relações surgiriam. Mas a viagem ao Rio apressou o processo. E eu achei importante que elas se mostrassem. Porque se você vive numa região nova, tem de se adaptar, entender outro povo e outra realidade, fazer novas descobertas que refletem no seu trabalho. E então, para que nessa nova vida você não se perca, é necessário um ponto de orientação, uma espécie de pontos cardeais, para onde, inevitavelmente, se atiçado, o seu inconsciente se volta para ordenar os caminhos. Os sons do Nordeste foram nesse tempo os meus pontos cardeais. E hoje ainda são, embora isso, em nenhum tempo, tenha me impedido de abrir-se em outras direções. O que eu quero é ter uma base, um pé no chão, para permitir que o outro cubra as distâncias para o Norte, Sul, Leste ou Oeste. O que está aqui é só o meu centro.”

Ele Ela: Diante do seu trabalho, da presença de Fagner, Belchior, Ednardo, o Quinteto Armorial e o Quinteto Violado e de outros músicos do Nordeste, você admite falar hoje num movimento da música nordestina?

Alceu: Acho que se deve acabar com esse chavão de música nordestina. Está superado. Acontece que existia, em termos culturais, um distanciamento muito grande entre o Sul e o Norte, apesar de forças como Luiz Gonzaga. Hoje ele está bem diminuído, já há a famosa ‘aldeia global’, formada por uma série de veículos nacionais. Quebradas as barreiras, a música do Nordeste passa a ser a música brasileira feita no Nordeste, sem isolamento. Ninguém vai dizer quer o samba é carioca só porque as grandes escolas estão no Rio. Para diminuir as distâncias, o trabalho  de Caetano e Gil foi importantíssimo, criando uma ponte, um elo e mostrando a música nordestina sem deturpações. Agora, é claro que cada  região tem o seu som característico e os músicos dessa região trabalham sob essas influências, que provocam às vezes semelhanças na criação. Mas partir daí para identificar um movimento é um negócio meio fascista.

Ele Ela: Entretanto, essa ideia de som nordestino existe e, de certa forma, é alimentada por grupos que deixam claro ser seu trabalho alimentasdo por exaustivas pesquisas folclóricas, o que lhe daria uma inatacável aura de autenticidade…

Alceu: Pessoalmente, nunca estudei ou racionalizei a música nordestina ou sentei para uma longa conversa com um violeiro, de gravador na mão. O zabumba, o aboio e o bumba-meu-boi, em São Bento do Una; a ciranda, o frevo e o coco, no litoral, sempre entraram em mim sem nenhuma triagem, da mesma forma que foi benvindo o rock e é esperada qualquer nova informação. Acho que enquanto eles assumem a posição de um grupo folclórico, de simples copilação da música do Nordeste, não tenho nada a dizer. Mas, quando a coisa ultrapassa esses limites, para se oficializar e assumir uma sofisticação que a torne acessível aos padrões de consumo médio, se torna perigosa. Vira uma espécie de padrão da música, uma linha, quando no fundo não é nada disso. Não passa de uma pincelada num quadro já feito e que talvez até mesmo suje esse quadro. Porque quando Baracho canta uma ciranda, ele é maior que qualquer outro. Mesmo os mais sofisticados porta-vozes dos desejos de consumo da classe média.

Ele Ela: Diante disso, como são suas relações, filho confessado da classe média, com as informações musicais do Nordeste?

Alceu e Geraldo Azevedo em 72

Alceu: A minha música não é documental de um som nordestino. É muito mais a minha imagem, a minha inflexão, a minha loucura mesmo. Algumas vezes pego elementos do bumba-meu-boi, ciranda ou maracatu, inclusive até textos. Mas diante deles minha visão é bem diferente: eu não copio. Eu tento acrescentar alguma coisa. Por exemplo, pegar uma frase solta, da qual eu curti a sonoridade, e daí desenvolver uma linha de pensamento, não necessariamente a mesma linha de pensamento do autor. Assim, um verso de embolador, como ‘sereia do mar/ouvi o cantar da sereia/peixe grande é a baleia/que faz um navio virar’, serviu de ponto de partida para o texto de uma música que fala de transas de um homem e uma mulher.

Ele Ela: Que loucura é essa, que você liga à sua música?

Alceu: A minha loucura é dentro da minha arte. Quando eu estou compondo ou cantando é como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo. Pode crer: quando estou num palco tenho verdadeiras alucinações. E acho que todas as pessoas deviam ser assim, agindo e crendo com todas as forças no que se está fazendo. Eu olho nos olhos das pessoas e elas olham no meu. E mesmo que o que eu tenha a dizer não esteja interessando, todos prestam muita atenção no que eu estou dizendo. Eu sei que tenho uma força muito grande dentro de mim e sei expressá-la: se não pelo diálogo, pelos olhos, gestos, as mãos, a mímica.

Ele Ela: Você sempre foi reconhecido pela qualidade de suas letras. E confirma agora o desejo de expressão, do diálogo. Você confirma a força do texto numa época em que se enaltece cada vez mais ‘o som pelo som’?

Alceu: Eu nunca pretendo calar. Quero sempre falar alguma coisa, nem que seja numa conversa de esquina. E acho também que a música popular não vai poder nunca prescindir da palavra, do diálogo com o público. É fundamental para sua sobrevivência. Por outro lado, a música não suporta um texto ruim. E isso é  o que não falta hoje. Somos, nas grandes capitais, uma sociedade em formação capitalista, recebendo diariamente uma massa de informações de sociedades mais avançadas e tentando, desesperadamente, adaptá-las ao meio. O resultado, em termos musicais, é um som que simplesmente repete as criações de grupos estrangeiros.

Ele Ela: Você acha que a pressão da Censura nos últimos anos não teria contribuído para que se formasse uma geração silenciosa, com receio de se expor?

Alceu: Sobre isso não consegui chegar ainda a uma conclusão. Houve uma pressão, está na cara. Como solução, a mais viável saída foi o artista se expressar por símbolos. Mas, como o tempo de pressão se prolongou e a força da linguagem do símbolo continuou presente e influente, o simbolismo passou a ser a linguagem musical mais cotada – mesmo agora, quando se fala em abertura e são reavaliados os conceitos. A consequência é que há uma dificuldade de se dizer as coisas de uma maneira direta, coloquial, como na boca do homem da rua, problema acrescido de uma autocensura naturalmente formada nos períodos de maior pressão. Dessa forma, a Censura foi decisiva no silêncio. Mas agora preenchê-lo de verdades é o trabalho que aguarda o artista.

Ele Ela: Com o seu trabalho, qual a função do artista no meio em que ele vive?

Alceu: Eu posso dizer que o artista é o bobo da corte, o cara que saca as coisas do reino e diz na sua cara todas as verdades. Ou posso dizer que o meu trabalho reflete o pensamento de várias pessoas que pensam como eu, um mero veículo. Ou que eu sou uma pessoa que interpreta a sociedade e pelos desencontros que expresso, as neuroses que sinto e o caos que denuncio assumo uma atitude. Para mim, é essa a função, que não é, de forma alguma, panfletária. Uma música como Planetário, a primeira que fiz no Rio, mostrando as neuroses da cidade grande, carrega dentro de si muitas críticas.

Ele Ela: Você se inicia agora, como um nome nacional. Quais são as suas chances de sobrevivência com essa mesma linha de trabalho?

Alceu: Grandes, porque há uma classe média que consome muito. E esse é o grande problema do artista: ela quer sempre se satisfazer com o artista e sempre se satisfaz com o que ele diz – mesmo que seja a pregação da sua extinção. Ela acha ‘estar por dentro’ conviver com o artista, o excêntrico. O que ela não entende é que quando pensa que está nos alcançando, nós já estamos em outra. Por exemplo: na minha música Vou Danado Pra Catende há uma transação muito doida com o poema de Ascenso Ferreira. No improviso com o texto de Ascenso eu estou louco, sou o próprio místico pregando contra a engrenagem, a cidade grande. Mas as pessoas ainda estão pensando que eu quero um trem, um trem de ferro da Central do Brasil…

Ele Ela: Mas você é classe média e o artista deve refletir…

Alceu: E isso é terrível. Veja bem: mal falo, começo logo a emitir opiniões sobre música nordestina, o quadro da música brasileira, empostando a voz arrojando sabedoria e opiniões, uma atitude tipicamente de classe média. Estou dando satisfações, dizendo o que sou e o que não sou. É o grande pudor da classe média, a grande culpa cristã. Mas eu pretendo escapar da roda-viva. É difícil, mas um dia as pancadas que você vai distribuindo por aí dão o resultado esperado.”